O BOM “NEGÓCIO” DO LIVRO E DA LEITURA

De uns anos pra cá, tem aumentado muito a realização de eventos de negócios envolvendo os mais diversos setores da economia e do mercado, uma tendência que, inclusive, chegou ao setor editorial. Prova disso é a realização do Salão de Negócios ABDL, que pela oitava vez consecutiva reuniu em março, na cidade de Gramado (RS), as principais empresas do país especializadas no comércio diretor de livros e também as grandes editoras. O evento, organizado pela Associação Brasileira de Difusão do Livro (ABDL), tem como principal objetivo promover a indústria e o comércio de livros porta a porta, além de valorizar a imagem do vendedor de livros e estimular a leitura no país. “O nosso encontro é uma grande oportunidade para a troca de experiências e fomentação de negócios”, declara Luis Antônio Torelli, presidente da ABDL.
O oitavo Salão de Negócios ABDL mais uma vez foi sucesso de público e expositores, tendo atraído mais de 200 participantes e 32 editoras, lembrando
que a feira é um evento fechado para negócios, sendo vedada a participação pública. “A ‘feira’ realmente é uma grande oportunidade para aparecer para o mercado e sacramentar negócios”, diz a coordenadora de vendas da Editora GMBC, Érica Magnino Nominato, cuja empresa participou pela primeira vez de um evento similar. A Editora GMBC (Grupo de Mídia Brasil Central), com sede em Uberlândia, está no mercado editorial há pouco mais de sete meses, tendo ainda apenas oito títulos pedagógicos editados – dos quais quatro lançados no Salão ABDL, em Gramado -, mas mesmo assim conseguiu bons resultados no evento. “A nossa expectativa mais otimista de fechamento de negócios para Gramado foi superada em 150%, por isso só temos o que comemorar”, confessa Érica Magnino. “Certamente, pelos resultados alcançados, estaremos presentes no próximo Salão ABDL, ainda com mais know-how e mais títulos na bagagem”, promete Érica. Além da possibilidade de negócios entre editores e distribuidores, outro assunto bastante discutido foi o mercado do livro porta a porta, que contou com a participação de vendedores que atuam nesse segmento de negócio do livro que é o que mais cresce no Brasil, segundo a ABDL. Ainda de acordo com a associação, ao contrário do que a maioria da população passa pensar, a profissão de vendedor de livros porta a porta não está chegando ao fim com a popularização da internet.
É o que mostra a pesquisa “Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro” da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), segundo a qual mais de 28,8 milhões de livros foram vendidos porta a porta em 2009, revelando que o segmento vem crescendo nos últimos anos.
Sua participação no mercado teve um crescimento vertiginoso em comparação aos demais canais de negociação com os leitores, elevando de 9,6% para 13,6¨%, mantendo a terceira posição entre os maiores canais de venda, atrás apenas das livrarias (que aumentaram suas vendas em apenas 5,05%)
e dos próprios distribuidores (que tiveram um retrocesso de – 13,2%), mas à frente da internet.
Segundo o presidente da ABDL – que congrega as principais empresas de venda direta de livro – esse crescimento se deve ao fato de os vendedores terem como foco o trabalho nas classes C e D. “Essa gama da população ascendeu nos últimos anos e passou a comprar mais e a entender os benefícios da leitura”, afirma Torelli.
Ele informa ainda que hoje existem cerca de 30 mil vendedores porta a porta no país e 32 editoras especializadas no segmento. Para finalizar, Torelli diz que a ABDL vai continuar sua luta para valorizar cada vez mais o papel do vendedor de livros porta a porta. “A cada ano, milhares e milhares de livros são comercializados e a profissão de vendedor de livros é uma das que mais cresce no mercado. “Nosso vendedor está preocupado em formar leitores. Ele orienta famílias, sugere títulos, além de levar uma leitura agradável e até transformar a vida das pessoas”, declara.

INCENTIVO DO BNDES
Mas não só a troca de experiências, a concretização de negócios e a valorização do vendedor porta a porta foram destaques no último Salão de Negócios ABDL realizado em Gramado. As empresas que atuam no setor também demonstraram muito interesse em saber mais sobre a nova linha criada pelo BNDES para apoio a esse segmento. Aliás, o mercado editorial é o setor da cultura que mais se beneficia das linhas de crédito oferecidas a custos
mais baixos pelo BNDES. As editoras e livrarias respondem sozinhas por mais de 40% dos R$ 481 milhões destinados pelo banco entre 2005 – ano em que
foi criado o BNDES ProLivro – e 2009 para o financiamento das atividades de empresas culturais, mesmo assim o número é muito pequeno quando com-
parado a outros setores da economia. Esses são dados de um estudo divulgado pelo Observatório do Livro e da Leitura durante o Fórum BNDES e os
Investimentos no Negócio do Livro, realizado em novembro na Câmara Brasileira do Livro (CBL) em São Paulo. Editores e livreiros contraíram, no período, quase o dobro em financiamento em relação ao setor audiovisual, que captou um total de R$ 107 milhões. Só muito abaixo aparecem, por exemplo, a indústria fonográfica, o rádio e a TV. Áreas como o patrimônio histórico e artes e espetáculos também só apareceram porque receberam recursos não reembolsáveis. Durante o fórum de São Paulo, destinado a empresários e executivos de editoras, atacadistas e livrarias, O BNDES apresentou suas novas linhas de crédito para o setor cultural, entre elas o ProCult, lançado na mesma semana do evento. O custo financeiro para a
edição, distribuição e comercialização de livros está abaixo do custo de outros programas criados pelo banco. A cadeia do livro tem, ainda, uma vantagem adicional: o BNDES aceitou liberar diretamente empréstimos a partir de R$ 1 milhão, o que não faz para nenhum outro setor da economia.
“O negócio do livro ainda não descobriu os benefícios de que pode usufruir ao recorrer a linhas especiais como essa do BNDES, que corre até o risco de um dia acabar por falta de tomadores”, afirmou na época o diretor do Observatório do Livro e da Leitura, Galeno Amorim, que organizou o even-
to para a Escola do Livro da CBL.

O MERCADO DO LIVRO
O ano de 2010, que inaugura a segunda década do Século XXI, mostra-se muito promissor para o mercado editorial e para a ampliação do hábito de leitura em nosso país. É o que informa a empresária do setor editorial e presidente da Câmara Brasileira do Livro (CBL), Rosely Boschini. “A começar pela estimativa de crescimento econômico de 5%, consolidando a recuperação econômica do Brasil, a primeira nação a emergir da grave crise mundial. Ademais, teremos a realização das eleições para a Presidência da República, governadores, senadores e deputados federais e estaduais, que sempre suscitam maior interesse em pesquisas e estudos sobre política e história”, destaca. Ela lembra ainda a realização da Copa do Mundo na África do Sul, evento tradicionalmente estimulante para a indústria da cultura e do entretenimento como um todo.
Outro fator importante, segundo a presidente da CBL, será a realização da 21ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, programada para ocorrer de 12 a 22 de agosto no Anhembi, em São Paulo. O evento – o momento do livro no Brasil – atrai grande volume de público, constituindo-se, tradicionalmente, em elemento formador de novos leitores. “Trata-se de um verdadeiro convertedor de visitantes de feiras em frequentadores de livrarias. Há que se considerar, ainda, o crescimento anual dos programas governamentais de distribuição de livros às escolas públicas, agora não mais restritos às obras didáticas”, ressalta.
Diante disso, na opinião de Rosely, há vários fatores que permitem vislumbrar com otimismo a performance do mercado editorial. “Não temos os números fechados de 2009, mas os dados e estatísticas dos estudos mais recentes corroboram a percepção de que o livro e a leitura encontram-se numa curva ascendente no país”, diz. Ela conta que, no período de 2006 a 2008, foram lançados aproximadamente 57 mil novos títulos e impressos mais de um bilhão de exemplares, conforme verificado pela pesquisa “Produção e Vendas do Mercado Editorial Brasileiro”, realizada pela Fipe/USP para a CBL e o Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL). O estudo também aponta significativa redução de preços. “Se considerarmos os valores reais, ou seja, já descontada a inflação de 2004 a 2008, a queda do preço médio efetivo do período foi de 22,4% no segmento de obras gerais”, exemplifica.
Em 2008, o mercado editorial faturou R$ 3,3 bilhões. Foram publicados 51.129 títulos (mais 19,52% em relação a 2007) e produzidos 340.274.195 exemplares (menos 3,17% na comparação com o ano anterior). Os números mostram maior investimento em novos títulos. É uma estratégia inteligente do
mercado, estimulando o surgimento de autores e a produção intelectual. O maior número de títulos permite gerenciamento estratégico das tiragens, que respondem ao comportamento da demanda. Outra importante pesquisa – Retratos da Leitura no Brasil – também indica um cenário de crescimento para o consumo de livros. Em sua última edição, identificou-se a existência de 95 milhões de leitores no país e um índice de leitura de 4,7 títulos por ha-
bitante/ano.
Assim, segundo a presidente da CBL, fica muito claro que a década encerrada em 2009 apresentou um grande avanço do livro no Brasil. “Entretanto, ainda estamos num patamar aquém do compatível com a realidade do país detentor da 10ª economia mundial, no qual se tem verificado um dos índices mais acentuados de redução da miséria no planeta e que se posiciona como nação prestes a ingressar no rol das desenvolvidas. Assim, é preciso, neste ano, um imenso esforço para mitigar os obstáculos à expansão substantiva do hábito de leitura”, alerta Rosely Boschini.

INVESTIR É PRECISO
A presidente da CBL aproveita para enumerar os entraves que ainda impedem a expansão do hábito de leitura no Brasil. “Um dos passos importantes é suprir a falta de bibliotecas, inclusive na rede pública de ensino”, enfatiza. Ela lembra que o Censo Escolar 2008 indica carência em 113 mil escolas, ou 68,81% da rede pública, e o problema não se limita à falta de livros. Em 2009, o orçamento federal para o envio de
obras gerais à rede pública foi de R$ 76,6 milhões, um montante apreciável para as aquisições. Em 2008, as escolas receberam, em média, 39,6 livros cada uma, média muito razoável, isso sem incluir o Programa Nacional do Livro Didático (PNLD). Para Rosely, o que mais falta é infraestrutura física, ou seja, espaços adequados à montagem das bibliotecas. Acrescenta-se a esse problema os grilhões do analfabetismo, triste realidade de um a cada dez brasileiros. Em números absolutos, segundo estudo do Ministério da Educação, cerca de 15 milhões de brasileiros maiores de 15 anos não sabem ler e escrever. Mais grave ainda é que 21,6% dos habitantes com mais de 15 anos são analfabetos funcionais.
Para finalizar, ela diz serem prioritários, ainda, programas capazes de facilitar o acesso ao livro pelas crianças e jovens matriculados na rede pública de ensino. Nesse sentido, além da ampliação das ações federais, como o PNLD e o Programa Nacional Biblioteca da Escola, são necessárias mais iniciativas conjuntas entre União, estados e municípios e a iniciativa privada. Exemplo bem-sucedido da viabilidade desse objetivo é o projeto Minha Biblioteca, realizado na cidade de São Paulo, com forte apoio e participação da CBL. “É essencial a mobilização do setor público e da iniciativa privada, como vêm fazendo as entidades do mercado editorial, para que 2010 seja o primeiro ano de uma década em que o livro esteja ao alcance de todos os brasileiros e a leitura, conduzindo nossa população à sociedade do conhecimento, referência de nossa condição de país desenvolvido”, conclui.