O pato social

Embora a presidente Dilma Rousseff tenha adiado por três anos (de 2013 para 1º de janeiro de 2016) o início da obrigatoriedade da nova ortografia, fruto do acordo entre os países de língua portuguesa e vigorando em caráter facultativo desde 2009, o Brasil já fez uma parte importante de sua lição de casa nesse processo. As escolas, a imprensa e o setor de livros adotaram as mudanças com agilidade e eficácia.

A sociedade, as instituições e o mercado editorial assimilaram muito bem as transformações, ao contrário de outras nações lusófonas, nas quais houve mais resistências.

Em Portugal, por exemplo, questionou-se muito a extinção do “C” e do “P” mudos em numerosas palavras, como “tacto”, “exacto”, “óptimo” e “excepção”. Os portugueses têm certa razão em reclamar, pois essas consoantes extirpadas eram o que se usava em seu país para marcar as sílabas tônicas de numerosos vocábulos. Embora constassem do vocabulário oficial brasileiro, as formas escritas das palavras nas quais essa letra não era pronunciada oralmente já estavam há muito em desuso. A rigor, o “C e o “P” extintos eram os usados em Portugal, não no Brasil.

Amigos que atuam no mercado editorial e na imprensa de Lisboa, externando com bom humor a sua indignação, argumentavam: “Queremos igualdade de condições e direitos. Se não podemos ser exactos’ em nosso idioma, então vocês não podem ter um pacto’, mas, sim, um pato social”.

Avicultura sociopolítica à parte, os lusos, a despeito de seus questionamentos, e os demais governos da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, com exceção de Angola, já ratificaram o acordo ortográfico. O mais importante de tudo isso é entender que as mudanças que unificaram a ortografia não alteraram a gramática e a riqueza do português, com sua multiplicidade de expressões homônimas e parônimas e infinitas possibilidades sintáticas para a composição das frases e sentenças.

Ademais, o alto grau de redundância linguística de nosso idioma permite que os textos sejam lidos rapidamente e na diagonal, sem prejuízo de se assimilar a informação mínima, e também facilita o mecanismo da previsibilidade (ou seja, mesmo quando faltam letras numa palavra, o leitor consegue ler de maneira correta). Tudo isso vai a favor do consenso nacional quanto à necessidade de estimular a leitura.

Considerando a adequada e rápida adaptação do Brasil e levando-se em conta que até os portugueses já ratificaram o acordo ortográfico, são incompreensíveis as propostas que às vezes surgem no nosso Legislativo ou na retórica de pretensos estudiosos do tema, de se produzirem novas mudanças.

O mais grave é que essas sugestões são radicais quanto à simplificação da língua. Sua adoção seria insensata e produziria, em poucas gerações, um estrago que nem mesmo as transformações naturais que o tempo impõe aos idiomas foram capazes de provocar no português.

É injustificável a proposta de simplificação do português ante a dificuldade de seu aprendizado. Precisamos fechar questão, num verdadeiro pacto em defesa de nossa língua e em favor da escola de excelência. Se abrirmos mão dessa responsabilidade, pagaremos o pato social, sem “C mudo” e sem direito ao bom humor.

Fonte: Folha de S. Paulo
Autora: Karine Pansa, presidente da Câmara Brasileira do Livro (CBL)