Serviço literário em domicílio

Mal pisa na calçada, as crianças já lhe abordam: “Tia, cadê os desenhos”? A pé, de bicicleta ou com o auxílio do carrinho de bebê, a agente de leitura Cláudia da Silva sai de casa diariamente pelas ruas do Conjunto Novo, Cidade 2000, com uma missão muito nobre: ela leva livros para adultos e crianças, conta histórias, distribui desenhos e constrói laços de amizade baseados em atitudes que reforçam os valores da educação, cidadania e cultura.

Assim como Cláudia, existem mais três agentes no mesmo bairro e outros 300 estão distribuídos pelo Ceará. Pioneiro na iniciativa, o Estado já cadastrou mais oito mil famílias leitoras.

A casa dos pequenos Edinaira e João Victor não fica uma semana sem receber um livro novo, garantem os dois. Edinaira, de 10 anos, diz que já leu mais de 20 livros desde que começou a receber a visita de Cláudia.

“E ela não espera o prazo terminar, em menos de uma semana já está na minha porta dizendo que terminou de ler”, conta a agente de leitura .

Enquanto o irmão mais novo não consegue ler sozinho, Edinaira conta histórias para ele. De acordo com a vó, Rita de Sousa, ler e escrever são as maiores diversões da neta.

Missão

Como aliada no processo de incentivo à leitura, Cláudia faz a visita munida de vários contos desenhados. Lápis e papel na mão são suficientes para traçar pontos, desenhar castelos, chaves e animais que enchem de sorriso adultos e crianças, que param para observar. São quatro horas diárias que a agente Cláudia dedica à sua missão.

O processo leitor de 25 famílias é acompanhado por ela e pela articuladora da comunidade, conta. Os dez bairros de Fortaleza beneficiados pelo projeto são aqueles de menor Índice de Desenvolvimento Municipal (IDM) e baixo Índice de Desenvolvimento Municipal dos Bairros (IDM-b). Cada agente de leitura recebe um kit com bicicleta, 89 livros, mochila, uniforme e bolsa mensal de R$ 350.

Além disso, os agentes de leitura são integrados às bibliotecas públicas municipais e escolares. Após seleção pública por meio de edital, todos os agentes de leitura passam por uma formação ampliada.

Durante a realização do curso, eles estudam as disciplinas voltadas para conhecimento em acervos, Pedagogia, Ética, Cidadania e Literatura. Até o fim de 2010, será divulgada a criação de mais 22 vagas para o projeto.

PROGRAMAÇÃO

Agentes se reúnem em encontro estadual

Contar experiências, trocar estratégias, reunir e ouvir convidados célebres. Isso representa um pouco do que esperam realizar os agentes de leitura durante IX Bienal Internacional do LIVRO do Estado do Ceará.

Pela quarta vez, desde que o projeto foi iniciado, eles estarão reunidos, no Centro de Convenções, para um momento de formação continuada. Nos dias 17 e 18 de abril, os agentes participarão de debates mediados, palestras e visitações guiadas na bienal. De acordo com a coordenadora do evento, Michele Girão, o encontro já está sendo organizado e divulgado, tudo a pleno vapor.

“A programação inclui convidados do Ministério da Cultura, como Fernando Braga, que vai falar sobre a transformação do projeto em política pública no Brasil, vai acontecer também o encontro com o escritor Pedro Bandeira, além da presença de Flávio Paiva na palestra de abertura sobre o exercício da leitura como cidadania”, adiantou Michele. A importância da integração entre os agentes de leitura e as bibliotecas públicas também será tema de palestra.

O encontro acontecerá no Espaço “Dora Doralina” e no Salão “O Quinze”. A programação é totalmente aberta ao público. É esperada a presença dos mais de 300 agentes de leitura vindos dos cerca de 40 municípios cearenses beneficiados.

Entrevista

Fabiano dos Santos Piúba – Diretor do Livro, Leitura e Literatura do Ministério da Cultura

“Uma nação se faz com homens, livros, mulheres, crianças e leitura”

O Ceará foi pioneiro no projeto Agentes da Leitura. Hoje, a iniciativa foi estendida para 15 estados brasileiros, tornando-se política pública em nível federal, a que se deve esse sucesso?

Vale registrar que também o Programa de Saúde da Família (PSF) surgiu no Ceará. Ambos atuam como estratégias de cidadania. A seleção traz a oportunidade de uma formação continuada e cria ambientes favoráveis nas comunidades para a formação leitora. O projeto foi criado em 2005 pela Secretaria da Cultura do Ceará (Secult). Em julho de 2007, foi incluído nas linhas programáticas do Mais Cultura, Programa do Governo Federal, criado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e pelo ex-ministro Gilberto Gil, que tem como diretrizes a democratização do acesso aos bens e serviços culturais, a qualificação dos ambientes sociais e urbanos e a geração de emprego e renda. A iniciativa dos Agentes da Leitura foi reconhecida porque democratiza, de fato, o acesso ao LIVRO e beneficia tanto os agentes como todas as famílias envolvidas.

Como acontece o acompanhamento dos agentes? Que resultados já podem ser apontados?

A ação não é só inicial, existe todo um processo de formação, com oficinas de criação literária, capacitação após a seleção, além da distribuição do material. No começo de 2010, serão formados cerca de três mil agentes em dez estados por meio de um curso, que ficará a cargo da Cátedra de Leitura Unesco, na Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio de Janeiro. Posteriormente, esses agentes poderão formar multiplicadores. Os editais devem sair entre abril e maio. No que diz respeito aos resultados, em primeiro lugar, as famílias atendidas melhoraram o rendimento escolar. Além disso, é iniciado todo um processo de inclusão social e cidadania cultural dentro das comunidades. Tanto para agentes como para famílias, que começam a fazer uso deste bem cultural tão rico que é o livro. Outros resultados serão apresentados num levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), entre 2010 e 2011. Serão avaliados os impactos que Agentes de Leitura e Pontos de Cultura causaram na educação e no repertório cultural dos atendidos.

Você acredita que o projeto interfere nos indicadores sociais de desenvolvimento?

Certamente as políticas públicas voltadas para o acesso à leitura e a Cultura influenciam nos Índices de Desenvolvimento Humano (IDHs) brasileiro e numa sensível melhoria na educação básica.

Sabemos que os editais são formas de tornar mais simples a distribuição de subsídios diretos. Como você avalia a distribuição de recursos no Programa Agentes de Leitura?

Existe uma dívida histórica com a leitura no Brasil. Mas essa realidade vem mudando. Monteiro Lobato dizia que um país se faz com homens e livros, acrescento que uma nação se faz com homens, livros, mulheres, crianças e leitura. Para se ter uma ideia, o Governo Federal distribuiu, entre 2002 e 2003 pelo Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL), um investimento que não passava de R$ 6 milhões. Hoje, já são investidos mais de 100 milhões ao ano com políticas voltadas para o Livro e para a Leitura. Os editais são simples, exigem conclusão do Ensino Médio, idade entre 18 e 29 anos e comprovante de endereço. Depois são avaliadas as habilidades em interpretação de texto, produção e fluência na leitura.

Repórter: Janayde Gonçalves

Fonte: Diário do Nordeste, CE – Marília Carmelo